Relatório mostra uso do Claude em redes de sites e perfis falsos; caso reacende alerta sobre desinformação produzida com inteligência artificial.
A inteligência artificial já não aparece apenas como ferramenta para escrever textos, resumir documentos ou responder perguntas. Um novo relatório de segurança da Anthropic, empresa responsável pelo Claude, mostra que a tecnologia também está sendo incorporada a estruturas organizadas de manipulação de informação. Entre as operações identificadas e interrompidas pela companhia está uma rede comercial que utilizava o Claude para produzir e reescrever conteúdo político direcionado a diferentes países — e o Brasil estava entre os públicos escolhidos. (Anthropic)
O caso chama atenção do cidadão brasileiro porque mostra como ficou mais barato e rápido criar grandes volumes de páginas, perfis e conteúdos aparentemente legítimos. Segundo a Anthropic, uma das redes investigadas chegou a publicar milhares de artigos e utilizava dezenas de sites falsos, além de contas coordenadas em redes sociais. A boa notícia é que, segundo a própria empresa, boa parte dessas operações teve alcance real limitado. Ainda assim, o episódio deixa uma pergunta prática: como saber quando uma notícia, perfil ou publicação política foi criado para manipular o leitor?
Como o Claude foi usado em uma operação que mirava o Brasil?
O relatório de inteligência de ameaças publicado pela Anthropic em setembro detalha atividades identificadas entre dezembro de 2025 e agosto de 2026. A companhia afirma ter encontrado usos indevidos de seus modelos em diferentes áreas, incluindo ataques cibernéticos, vigilância, golpes e operações de influência. No campo da desinformação, uma das estruturas mais relevantes identificadas pela empresa funcionava como uma espécie de serviço comercial de influência, no qual tecnologia e automação permitiam produzir conteúdo político em escala muito maior do que seria possível com uma pequena equipe humana. (Anthropic)
Em um dos casos, a Anthropic afirma ter identificado uma operação associada à LKM Company, descrita no relatório como uma agência francesa de publicidade digital. A estrutura teria utilizado aproximadamente 70 sites de notícias fabricados, cerca de 70 contas correspondentes no X e mais de 250 contas inautênticas destinadas a comentários e amplificação. Pelo menos 8.913 artigos, em aproximadamente 20 idiomas, foram publicados pela rede identificada. O Claude era utilizado tanto para produzir textos originais quanto para reescrever matérias de veículos legítimos, modificando o conteúdo conforme o público e o posicionamento político desejados. (Anthropic)
O Brasil aparece de maneira explícita nesse caso. Segundo a investigação da Anthropic, a operação buscava alcançar públicos em ambientes democráticos disputados, com foco especialmente nos Estados Unidos, Brasil, França e República Democrática do Congo. A rede não seguia necessariamente uma única corrente política: o posicionamento poderia mudar conforme os interesses de quem contratava o serviço. Esse detalhe é importante para o leitor brasileiro, porque mostra que campanhas desse tipo não precisam ter compromisso ideológico permanente. O objetivo pode ser simplesmente influenciar uma discussão, promover determinada narrativa ou atacar adversários em troca de pagamento. (Anthropic)
Isso significa que milhares de brasileiros foram enganados pela campanha?
Não. Essa é uma diferença fundamental para compreender corretamente o relatório. Encontrar uma operação voltada ao público brasileiro não significa demonstrar que ela conseguiu convencer milhares ou milhões de pessoas no país. A própria Anthropic ressalta que muitas das operações de influência identificadas por seus sistemas tiveram pouco ou nenhum envolvimento autêntico de usuários reais. Como a companhia consegue detectar alguns comportamentos enquanto as campanhas ainda estão sendo preparadas, determinadas redes podem ser interrompidas antes de alcançar uma audiência significativa. (Anthropic)
No caso da rede comercial que incluía o Brasil entre seus alvos, a Anthropic classificou o alcance como Categoria Dois na chamada Breakout Scale, metodologia utilizada para avaliar a disseminação de operações de influência. Isso significa que o conteúdo circulou pelos próprios sites e pelas contas associadas à estrutura, mas a empresa afirma não ter encontrado evidência de que a campanha tenha conseguido romper essa bolha e alcançar grande repercussão orgânica. Portanto, seria incorreto afirmar que a operação alterou a opinião pública brasileira ou produziu impacto político comprovado. (Anthropic)
O alerta está principalmente na capacidade de produção. Antes da popularização da IA generativa, manter dezenas de supostos portais, produzir milhares de artigos em vários idiomas e alimentar centenas de contas exigia uma quantidade muito maior de pessoas, dinheiro e tempo. Sistemas de inteligência artificial permitem automatizar parte desse trabalho, adaptar textos rapidamente e produzir versões diferentes da mesma narrativa. A Anthropic afirma ter observado inclusive modelos atuando como uma espécie de “redação”, inseridos em estruturas previamente organizadas por humanos. Isso não transforma todo conteúdo produzido por IA em desinformação, mas reduz o custo de quem deseja construir artificialmente uma aparência de legitimidade e volume. (Anthropic)
Como o cidadão pode identificar conteúdo suspeito produzido com inteligência artificial?
Para quem recebe notícias pelo WhatsApp, redes sociais, buscadores ou aplicativos, o primeiro cuidado continua sendo verificar quem publicou a informação originalmente. Uma página com aparência profissional não é necessariamente um veículo jornalístico legítimo. Vale pesquisar o nome do portal, verificar se existem informações sobre responsáveis, procurar a mesma notícia em outras fontes e desconfiar quando dezenas de páginas pouco conhecidas reproduzem argumentos extremamente semelhantes. O relatório da Anthropic mostra justamente que atores mal-intencionados conseguem construir redes inteiras de páginas aparentemente independentes. (Anthropic)
Outro sinal importante é separar aparência de evidência. Fotografias convincentes, textos bem escritos e linguagem jornalística deixaram de ser garantias de autenticidade, porque ferramentas generativas conseguem reproduzir esses elementos rapidamente. Em assuntos envolvendo eleições, benefícios públicos, saúde, segurança ou decisões que podem mexer com o bolso, o cidadão deve procurar a fonte primária da informação e conferir datas, documentos e contexto. Também é recomendável desconfiar de conteúdos que tentam provocar uma reação imediata — como compartilhar rapidamente, sentir indignação ou acreditar que determinada informação está sendo escondida — sem apresentar elementos verificáveis.
O problema, porém, não pode ser colocado apenas sobre o usuário. O relatório mostra que empresas responsáveis pelos modelos também possuem papel relevante na identificação de abusos. A Anthropic afirma que bloqueou contas relacionadas às operações encontradas, desenvolveu novas formas de detectar comportamentos semelhantes e compartilhou indicadores com parceiros do setor quando necessário. A empresa também reconhece uma limitação importante: sua capacidade de acompanhar uma campanha diminui depois que o conteúdo sai de seus sistemas e passa a circular em outras plataformas, tornando necessária a colaboração entre empresas, pesquisadores, autoridades e organizações independentes. (Anthropic)
Para o brasileiro, a principal mensagem não é que todo conteúdo criado por inteligência artificial seja suspeito. A tecnologia pode ser utilizada de maneira legítima por trabalhadores, estudantes, empresas, órgãos públicos e veículos de comunicação. O problema surge quando a mesma capacidade é empregada para esconder quem realmente está por trás de uma mensagem e fabricar uma falsa impressão de apoio popular ou independência editorial.
O episódio revelado pela Anthropic mostra que esse tipo de estrutura já consegue operar internacionalmente e adaptar suas mensagens ao Brasil. Ao mesmo tempo, os dados disponíveis não demonstram que a campanha mencionada tenha alcançado grande audiência brasileira. O desafio daqui para frente será justamente impedir que a facilidade de produzir conteúdo em massa transforme quantidade em aparência de credibilidade. Para o cidadão comum, conferir a origem da informação antes de acreditar ou compartilhar tornou-se uma proteção ainda mais importante na era da inteligência artificial. (Anthropic)
Fontes:
- Anthropic — Relatório oficial “Detecting and countering misuse of AI: September 2026” — fonte primária sobre as nove operações de influência, incluindo a rede que mirava o Brasil. (Anthropic)
- Anthropic — Threat Intelligence — página oficial da equipe responsável pelas investigações sobre uso indevido do Claude. (Anthropic)
- UOL Tilt/Reuters — Anthropic corta campanhas de IA russas e chinesas direcionadas ao Claude — repercussão publicada em 10/09/2026. (UOL)
- UOL Tilt — Anthropic bloqueia uso de IA em pesquisas ligadas a armas biológicas — também detalha a operação de influência que tinha o Brasil como alvo. (UOL)
- Folha de S.Paulo — Casos em que a Anthropic diz que Claude foi usado para armas, espionagem e golpes — reportagem de 12/09/2026 sobre as descobertas do relatório. (www1.folha.uol.com.br)

