Fabricantes planejam aplicar cerca de 5 trilhões de ienes no Japão até 2032 para ampliar a produção de memória flash NAND, desenvolver novas tecnologias e responder à crescente demanda de data centers e sistemas de inteligência artificial.
A japonesa Kioxia e a norte-americana Sandisk anunciaram nesta quinta-feira, 27 de agosto de 2026, um dos maiores planos recentes de investimento da indústria mundial de memória. As duas empresas pretendem investir mais de US$ 31 bilhões, aproximadamente 5 trilhões de ienes, no Japão até 2032, fortalecendo sua parceria de longa duração na produção de memórias flash. (Reuters)
O plano está diretamente relacionado ao crescimento acelerado da demanda por armazenamento provocado pela inteligência artificial e pela expansão mundial dos data centers. À medida que empresas constroem infraestruturas cada vez maiores para treinamento e execução de modelos de IA, cresce também a necessidade de sistemas capazes de armazenar e movimentar enormes quantidades de informações com velocidade e eficiência energética. (Reuters)
Investimento seguirá até 2032
O programa anunciado pelas duas fabricantes será realizado ao longo dos próximos anos e inclui expansão da infraestrutura produtiva existente, desenvolvimento de tecnologias e aumento da capacidade de fabricação no Japão. A operação está condicionada ao apoio do governo japonês, que vem tratando semicondutores como uma área estratégica para sua política industrial. (Business Wire)
O montante superior a US$ 31 bilhões mostra a dimensão da aposta. Kioxia e Sandisk já mantêm uma parceria industrial de décadas e informam ter realizado mais de US$ 50 bilhões em investimentos no Japão nos últimos 25 anos. A nova rodada pretende preparar as operações para uma fase na qual a demanda de IA poderá representar parcela cada vez maior do mercado de armazenamento. (The Wall Street Journal)
Nova fábrica está prevista em Kitakami
Um dos principais componentes do projeto será a ampliação das instalações de Kitakami, na província de Iwate, no norte do Japão. A Kioxia planeja construir uma nova unidade no complexo para aumentar a capacidade de produção de memória flash. A previsão divulgada é que a nova instalação possa começar a operar no ano fiscal de 2029. (The Wall Street Journal)
A empresa já produz em Kitakami sua memória BiCS Flash de décima geração, desenvolvida em parceria com a Sandisk. A expansão deverá permitir que tecnologias mais avançadas sejam fabricadas em escala maior à medida que novos dispositivos e servidores exijam armazenamento de maior densidade e desempenho. (ETElectronics.com)
Por que a inteligência artificial precisa de tanta memória?
Grande parte da atenção recente em torno da IA está concentrada em processadores avançados, especialmente GPUs. Porém, esses chips representam apenas uma parte da infraestrutura necessária para colocar grandes sistemas de inteligência artificial em funcionamento.
Modelos precisam trabalhar com enormes conjuntos de informações. Data centers, portanto, necessitam não apenas de capacidade de processamento, mas também de equipamentos capazes de armazenar grandes volumes de dados e disponibilizá-los rapidamente aos sistemas computacionais.
É justamente nesse ponto que a memória flash NAND e os SSDs empresariais ganham importância. Quanto maior a quantidade de dados processada pelas plataformas de IA, maior tende a ser a necessidade de sistemas de armazenamento rápidos, densos e eficientes energeticamente. A Kioxia já vinha preparando uma nova geração de memória desenvolvida em conjunto com a Sandisk para atender essa expansão. (Reuters)
Memória NAND entra no centro da corrida da IA
A memória NAND está presente em SSDs, servidores, computadores, smartphones e diferentes equipamentos eletrônicos. No mercado de data centers, entretanto, as exigências são especialmente elevadas porque os dispositivos precisam lidar continuamente com grandes quantidades de informações.
A expansão da inteligência artificial está alterando essa dinâmica. O armazenamento deixou de ser visto apenas como componente secundário e passou a fazer parte da disputa pela construção de infraestrutura computacional capaz de sustentar modelos cada vez maiores.
Para Kioxia e Sandisk, isso representa uma oportunidade de ampliar participação em um mercado no qual fabricantes asiáticos disputam agressivamente capacidade, tecnologia e contratos com grandes operadores de data centers.
Japão quer recuperar força na indústria de semicondutores
O investimento também possui importância estratégica para o Japão. O país já ocupou posição dominante na fabricação mundial de semicondutores, mas perdeu participação ao longo das últimas décadas para concorrentes de Taiwan, Coreia do Sul, China e Estados Unidos.
Nos últimos anos, Tóquio passou a destinar incentivos bilionários à reconstrução de sua cadeia doméstica. O plano de Kioxia e Sandisk está alinhado a essa política econômica e dependerá de apoio governamental para sua execução integral. (Reuters)
Ao ampliar a produção doméstica, o Japão também busca reduzir vulnerabilidades nas cadeias internacionais de fornecimento. Chips e memórias são componentes fundamentais para automóveis, telecomunicações, inteligência artificial, eletrônicos e infraestrutura digital.
Kioxia e Sandisk fortalecem parceria histórica
A relação industrial entre as duas empresas não começou com o atual boom da inteligência artificial. As companhias mantêm uma parceria de fabricação de memória flash há décadas e operam conjuntamente importantes instalações japonesas.
Em janeiro de 2026, por exemplo, as empresas estenderam até 2034 o acordo relacionado à joint venture de Yokkaichi. Na ocasião, a Sandisk também acertou pagamentos de US$ 1,165 bilhão à Kioxia por serviços de fabricação e continuidade do fornecimento entre 2026 e 2029. (Sandisk)
O anúncio desta quinta-feira amplia significativamente essa cooperação. Em vez de simplesmente preservar a capacidade existente, as empresas estão preparando uma expansão destinada a acompanhar uma possível mudança estrutural no mercado de armazenamento.
Corrida por chips provoca investimentos bilionários
Kioxia e Sandisk não estão sozinhas. Grandes fabricantes asiáticas estão anunciando projetos de expansão para acompanhar o crescimento da demanda relacionada à inteligência artificial.
A SK Hynix, por exemplo, também anunciou grandes investimentos em capacidade produtiva na Coreia do Sul. A movimentação evidencia como a competição pela infraestrutura de IA está ultrapassando o mercado de GPUs e chegando a diferentes componentes da cadeia de semicondutores. (The Wall Street Journal)
Esse cenário também aumenta a competição entre fabricantes de memória. Empresas precisam decidir hoje quanto produzirão daqui a vários anos, mesmo em um setor historicamente conhecido por ciclos de escassez e excesso de oferta.
Investimento também envolve riscos
Apesar das perspectivas favoráveis relacionadas à IA, construir fábricas de semicondutores exige investimentos gigantescos e planejamento de longo prazo. Uma nova unidade pode levar anos até alcançar produção em grande escala, enquanto as condições do mercado podem mudar rapidamente.
Um crescimento da capacidade superior à demanda futura poderia pressionar preços e margens das fabricantes. Por outro lado, investir pouco diante de uma expansão persistente da IA poderia provocar falta de componentes e perda de contratos para concorrentes.
Por isso, o programa até 2032 representa uma aposta de longo prazo de Kioxia e Sandisk de que a demanda por armazenamento continuará crescendo mesmo depois da atual fase de investimentos acelerados em inteligência artificial.
Data centers devem sustentar nova demanda
O avanço dos data centers aparece como uma das principais justificativas econômicas para o projeto. Empresas de tecnologia estão construindo instalações cada vez maiores para executar modelos de IA, serviços em nuvem e aplicações digitais.
Essa infraestrutura precisa armazenar conjuntos gigantescos de dados, parâmetros de modelos, arquivos empresariais e informações produzidas pelas próprias aplicações. Consequentemente, a capacidade de armazenamento passa a crescer junto com a capacidade computacional.
A estratégia das duas fabricantes é posicionar suas novas gerações de memória justamente para esse mercado, combinando maior densidade, desempenho e eficiência energética.
Anúncio reforça transformação da indústria de tecnologia
O investimento superior a US$ 31 bilhões mostra como o boom da inteligência artificial está transformando setores que vão muito além das empresas responsáveis pelos modelos generativos. Fabricantes de memória, equipamentos para semicondutores, servidores, redes, energia e sistemas de refrigeração estão sendo diretamente afetadas pela construção da nova infraestrutura digital.
Para Kioxia e Sandisk, a aposta significa ampliar capacidade agora para atender um mercado que poderá ser significativamente maior no início da próxima década. Se as projeções de crescimento da IA se confirmarem, armazenamento de alto desempenho deverá ocupar uma posição cada vez mais estratégica dentro dos data centers.
O anúncio desta quinta-feira, portanto, representa mais do que a construção de novas linhas de fabricação. Ele mostra que a corrida global pela inteligência artificial está provocando uma nova onda de investimentos bilionários em semicondutores, com Japão, Estados Unidos, Coreia do Sul, Taiwan e China disputando posições em uma cadeia tecnológica considerada essencial para a economia digital.
Fontes:
Reuters — Kioxia e Sandisk anunciam investimento superior a US$ 31 bilhões
Anúncio do investimento de Kioxia e Sandisk
The Wall Street Journal — expansão da produção de memória para IA

