Roraima tem cerca de 177 mil hectares de pastagem hoje classificados como degradados, área com potencial de recuperação em vez de abandono. O número aparece em levantamentos recentes sobre o setor agropecuário do estado e ajuda a explicar por que a pecuária local está mudando de foco. Em vez de abrir novas frentes de pasto, parte do setor passou a olhar para dentro da própria fazenda.
Guilherme Campos, investidor com atuação também no setor agro, observa que recuperar essa terra costuma custar menos e render mais do que abrir uma área nova de pasto. É uma conta que muda a forma como o produtor rural pensa a expansão do próprio negócio, sobretudo num estado onde a fronteira entre pasto e floresta segue sensível.
Por que tanta pastagem perde produtividade com o tempo?
O solo compactado pelo pisoteio do gado, sem reposição de nutrientes, perde matéria orgânica ano após ano. A forragem rareia, o gado engorda mais devagar e o produtor passa a precisar de mais área para manter o mesmo rebanho. É um processo lento, quase invisível na rotina da fazenda, até que o pasto simplesmente para de sustentar o gado como antes.
Os sinais aparecem antes da queda de peso do rebanho: capim ralo entre touceiras de invasoras, formigueiros que se espalham e solo exposto nas áreas de maior trânsito do gado. Guilherme Campos aponta que a recuperação costuma ser adiada justamente porque os efeitos da degradação demoram a aparecer no caixa da propriedade, e o produtor só reage quando o prejuízo já está avançado.
Como a integração lavoura-pecuária-floresta reverte esse processo?
O sistema conhecido como ILPF combina, na mesma área, pastagem, cultivo agrícola e árvores, em rotação ou consórcio. A raiz das plantas rompe a compactação do solo, a palhada da lavoura devolve matéria orgânica e a sombra das árvores melhora o conforto térmico do rebanho, reduzindo o estresse de calor em regiões de clima quente como Roraima.

O resultado prático é uma pastagem que sustenta mais cabeças de gado por hectare sem precisar de mais terra desmatada. Guilherme Campos indica que, em Roraima, esse modelo já é testado em parceria com centros de pesquisa agropecuária, com foco em recuperar áreas alteradas antes de abrir novas frentes de produção. O custo de implantação, que inclui preparo do solo e plantio das culturas de rotação, tende a se pagar em poucos ciclos, porque a mesma área passa a gerar madeira, grão e carne ao mesmo tempo.
O que essa virada representa para quem decide investir no setor hoje?
Investir em recuperação de pasto tem um custo inicial real, que só se paga ao longo de alguns anos de produção. É uma decisão diferente de simplesmente comprar terra nova, porque envolve gestão de risco e planejamento de prazo mais longo antes do retorno aparecer. Quem decide sobre grandes projetos rurais precisa pesar esse horizonte junto com o preço da terra disponível na região.
Para Guilherme Campos, esse é justamente o ponto que separa quem pensa a pecuária como negócio de longo prazo de quem busca apenas resultados imediatos. A escolha entre recuperar e expandir deixou de ser só uma questão ambiental e passou a ser também uma questão de estratégia financeira, com peso direto no valor do patrimônio rural ao longo dos anos.
O futuro da pecuária no Norte passa por terra já aberta
Cada hectare recuperado, em vez de desmatado, reduz a pressão sobre a floresta e ainda mantém o estado dentro de metas ambientais cada vez mais cobradas pelo mercado externo. Para Roraima, isso significa crescer sem repetir o modelo de expansão que consumiu floresta em outras regiões do país, e sem abrir mão da renda que sustenta o campo.
Portanto, podemos perceber, como constata Guilherme Campos, que a pecuária que recupera antes de expandir também movimenta emprego local, da mão de obra do plantio à logística de escoamento da produção adicional. Ela aponta para um jeito diferente de ocupar o território amazônico, com produtividade e permanência no lugar de avanço constante sobre área nova.
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