Levantamento do Reglab estima que a tecnologia pode acrescentar R$ 986,7 bilhões ao PIB brasileiro até 2030, mas crédito caro, desigualdade entre empresas e falta de qualificação ainda dificultam avanço
O Brasil avança na adoção da inteligência artificial, mas ainda mantém uma defasagem relevante em relação às economias mais desenvolvidas. Um estudo do centro de pesquisas Reglab, divulgado nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, aponta que a taxa atual de adoção de IA no país é semelhante à registrada pelos Estados Unidos aproximadamente dois anos atrás. (Exame)
Apesar da diferença, as projeções indicam um impacto econômico expressivo. O levantamento estima que a inteligência artificial poderá acrescentar cerca de R$ 986,7 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro entre 2027 e 2030. O montante corresponde a aproximadamente 7,6% do PIB projetado para 2026. (Exame)
Por que o Brasil está atrás dos Estados Unidos?
De acordo com o estudo, a diferença não está relacionada a um único fator. Entre os obstáculos apontados estão o custo mais elevado do crédito, as diferenças de capacidade tecnológica entre empresas brasileiras e as lacunas existentes na qualificação dos profissionais. (Exame)
Essas barreiras afetam principalmente organizações que precisam investir em infraestrutura, softwares, treinamento e modernização de processos antes de incorporar soluções de inteligência artificial em escala.
O resultado é um cenário desigual. Enquanto algumas companhias já experimentam agentes de IA, automação avançada e sistemas generativos, outras ainda enfrentam etapas anteriores da transformação digital.
Quase R$ 1 trilhão pode ser acrescentado à economia
O potencial econômico apresentado pelo Reglab é um dos principais destaques do levantamento. Dos R$ 986,7 bilhões estimados até 2030, cerca de 65% dos ganhos decorreriam do aumento da produtividade do trabalho humano.
Os outros 35% seriam associados à maior produtividade do capital, incluindo máquinas, equipamentos e infraestrutura produtiva capazes de incorporar inteligência artificial. (UOL Economia)
A projeção ajuda a mostrar que a adoção da tecnologia não está limitada aos assistentes virtuais e ferramentas de geração de textos e imagens que se popularizaram entre consumidores.
Sistemas inteligentes podem ser incorporados a processos industriais, equipamentos agrícolas, atendimento ao consumidor, logística, análise financeira, desenvolvimento de produtos e inúmeras outras atividades econômicas.
Indústria pode concentrar maior impacto
Entre os setores analisados, a indústria de transformação aparece com o maior potencial de ganho econômico em valores absolutos: aproximadamente R$ 264,2 bilhões.
Na sequência aparecem os serviços, com R$ 165,4 bilhões, e o comércio, com R$ 131,2 bilhões. (Exame)
Segundo a análise, o tamanho desses setores dentro da economia brasileira ajuda a explicar os valores. Serviços e comércio também concentram grande quantidade de atividades cognitivas, nas quais ferramentas de inteligência artificial podem auxiliar trabalhadores a executar determinadas tarefas com mais rapidez.
Na indústria, o impacto é mais equilibrado entre produtividade humana e investimentos em máquinas e infraestrutura.
Agronegócio terá dinâmica diferente
O agronegócio apresenta uma característica particular. Segundo outro recorte do estudo divulgado nesta quinta-feira, aproximadamente 92% do impacto econômico da IA no campo deverá ocorrer por meio de máquinas e equipamentos inteligentes, e não principalmente pelo aumento da produtividade do trabalho humano. (Exame)
A estimativa é de aproximadamente R$ 48 bilhões em ganhos para a agropecuária.
Essa diferença está relacionada à própria estrutura produtiva do setor. Máquinas agrícolas inteligentes, sistemas automatizados, sensores e equipamentos capazes de tomar decisões baseadas em dados podem representar parcela importante da transformação tecnológica no campo. (Exame)
Qualificação profissional vira desafio estratégico
A falta de profissionais preparados para trabalhar com inteligência artificial aparece entre os fatores capazes de limitar a velocidade da adoção no Brasil.
A questão não envolve somente formar especialistas capazes de desenvolver modelos avançados. Empresas também precisam preparar trabalhadores de diferentes áreas para utilizar ferramentas de IA em suas atividades cotidianas.
Isso inclui desde profissionais administrativos e financeiros até trabalhadores da indústria, comércio, logística e serviços.
Quanto maior for a integração da inteligência artificial aos processos produtivos, maior será a necessidade de combinar conhecimentos específicos de cada profissão com competências digitais.
Infraestrutura também pode determinar velocidade da adoção
Outro desafio é garantir que os benefícios não fiquem concentrados apenas nas maiores empresas e nas regiões com infraestrutura tecnológica mais desenvolvida.
O estudo destaca a importância de políticas públicas e infraestrutura para uma adoção mais ampla. No agronegócio, por exemplo, a disponibilidade de conectividade em regiões rurais pode influenciar diretamente a utilização de máquinas e soluções digitais baseadas em inteligência artificial. (UOL Economia)
Crédito e capacidade de investimento também são importantes. Empresas menores podem encontrar mais dificuldades para financiar equipamentos, contratar profissionais especializados ou desenvolver projetos próprios de automação.
Brasil também apresenta sinais de avanço
A defasagem em relação aos Estados Unidos não significa ausência de avanço tecnológico no país. Outros levantamentos divulgados em 2026 mostram que o Brasil já possui áreas nas quais empresas apresentam adoção relevante de tecnologias mais recentes.
Um relatório sobre tendências tecnológicas divulgado em junho apontou, por exemplo, que 18% das organizações brasileiras analisadas já haviam integrado agentes de inteligência artificial aos fluxos de trabalho, diante de uma média mundial de 13%. (GFT)
Os indicadores medem aspectos diferentes da adoção de IA e, por isso, não são diretamente comparáveis. Ainda assim, mostram que determinadas tecnologias podem avançar rapidamente dentro de grupos específicos de empresas brasileiras.
Corrida pela IA entra em nova fase
Os dados divulgados pelo Reglab indicam que o debate brasileiro sobre inteligência artificial tende a mudar de foco. Além da discussão sobre o potencial das ferramentas generativas, ganha importância a capacidade de transformar IA em produtividade econômica.
Para isso, empresas precisarão investir não apenas em softwares, mas também em treinamento, infraestrutura, reorganização de processos e equipamentos.
O desafio para o Brasil será reduzir a distância em relação às economias mais avançadas sem ampliar as diferenças existentes entre grandes e pequenas empresas ou entre regiões com níveis distintos de infraestrutura.
Se as projeções do estudo se confirmarem, a inteligência artificial poderá acrescentar quase R$ 1 trilhão à economia brasileira até o fim da década. O tamanho desse impacto, entretanto, dependerá da velocidade e da abrangência com que empresas, trabalhadores e setores produtivos conseguirem incorporar a tecnologia nos próximos anos. (Exame)

